Há um mito comum em relação ao inglês — em verdade, em relação a qualquer idioma estrangeiro — de que basta um dicionário para traduzi-lo. De fato, um dicionário pode ajudar alguém a ter uma ideia do conteúdo, mas apenas ele não basta. Há muito mais por trás de um texto do que palavras individuais. Cada língua tem suas peculiaridades gramaticais, expressões idiomáticas, a cultura do país de origem e o contexto específico do leitor.
Traduzir é mais do que transpor palavras entre línguas, é também transpor sentido e contexto. O tradutor deve seguir o estilo do original e garantir um texto fluido na língua de destino. Além da ortografia e da gramática, o tradutor preza a clareza, a precisão e a adequação do texto final. A redação não deve chamar atenção para si, mas, sim, se fundir com a mensagem de forma natural para que a leitura corra sem percalços.
Essa noção existe mesmo dentro de um único idioma, onde o contexto vai ditar a forma como uma ideia é expressada. Um policial que diga “Positivo, operante” durante o expediente não deve usar essa forma para responder a seus familiares em casa, onde um simples “Sim” é muito mais adequado. Um skatista explicando uma manobra a um amigo ao pé de uma rampa soará muito mais espontâneo se perguntar “Tá ligado, mano?” em vez de “O senhor compreendeu?”
Certa vez, revisei um artigo que havia sido recusado por problemas no inglês para uma estudante de Medicina. O texto havia sido vertido por uma professora do curso de Letras em um rebuscado estilo literário que, apesar de competente, não cabia em um periódico científico. Ainda que a gramática e ortografia estivessem corretas, a revista acertou ao não aceitar o texto para publicação por fugir do padrão esperado. Após a adequação do estilo, o artigo foi aceito sem ressalvas.
Quando eu traduzia textos para a revista Autoesporte, adequar a cor local era uma preocupação constante. A redação frequentemente usava metáforas esportivas para descrever a performance arrojada dos carros e era importante adaptá-las para que um brasileiro as entendesse como em uma conversa no bar. O autor descrevia em inglês a firmeza e agilidade da máquina nas entradas de curvas invocando a imagem de Scottie Pippen fintando no garrafão para mais uma cesta, mas o esporte que o leitor brasileiro acompanha provavelmente não é o basquetebol e ele talvez sequer conheceria o ala do Chicago Bulls. Minha opção era falar sobre Ronaldo driblando na pequena área antes de chutar para o gol, uma imagem muito mais familiar e significativa para a nossa realidade
Esse tipo de adaptação é fundamental seja em tradução literária ou técnica. Se o autor escreve um personagem usando linguagem informal, talvez rompendo com a norma culta, isso deve ser refletido no texto traduzido. Igualmente, uma palavra pode ter um sentido completamente distinto de seu uso cotidiano para descrever materiais e métodos em um contexto científico. Se o tradutor não respeitar esses detalhes, o texto soará desconectado de seu ambiente e, potencialmente, será até incompreensível.